Noite em Rio Maior

Muitas gerações habitam a cidade: idosos (e reformados), adultos, jovens e crianças.
Estratos sociais movimentam (e seleccionam) convivências: ricos, menos abastados, “remediados” e pobres. E, por circunstâncias várias, alguns emergentes a todas estas condições e…condicionantes.
Naturais, temporariamente residentes ou fixados por opção, “conhecem-se” e convergem para…“guetos”. Só episodicamente fortalecem relações.
Diversificados graus de cultura escolhem (e rareiam) aproximações.
Profissões diversas e estudantes, muitos, vivificam o dia e “desaparecem” na noite.
Rio Maior é já um pouco cosmopolita. Não deve menosprezar esse status. Tem que entender e adaptar-se a novas linguagens, inusitados comportamentos, “descolagens” sociais, rupturas estruturais, mutações geracionais, evoluções e estagnações económico-financeiras, competitivos protagonistas.
A sessenta minutos da capital do país, e provavelmente com (algumas) mais movimentações sociais e comerciais após o novo aeroporto na Ota, deve hoje assegurar e estimular presenças dos seus naturais para, sem constrangimentos, sem receios de competição nem desconfianças, interagirem e receberem voláteis presenças, díspares negócios, inesperados residentes.
Obviamente, qualquer sociedade minimamente desenvolvida possui dinâmicas sociais e culturais regulares e peculiares. E é a partir dessa “normalidade” que se criam estruturas para activas participações numa programação inesperada, (a)normal!... Também, nocturna.
Alguns autarcas profissionais desde os anos 1990 –nada contra, se competentes-- e já com tempo suficiente para entenderem a população, ainda não projectaram iniciativas, accionaram revitalizações, nem perceberam que a Cultura gera receitas também para o comércio. Atrai “forasteiros”, publicita o local. Não se deve permitir esse evidente laxismo.
Por outras palavras: é urgente que a Câmara proporcione aos cidadãos regular bem-estar nocturno, para além de alguns eventos nas Tasquinhas, Noites de Verão, FRIMOR, Feriado Municipal. Com acontecimentos de rua, colóquios, sessões sobre literatura, festivais, ciclos, conferências, ou concertos. Etc, etc.
Não custa muitos milhares de euros/ano: basta ter conhecimentos, talento, criteriosa organização. E sobretudo, vontade. Muito mais caro e irreversivelmente trágico ficará o futuro, se as pessoas não se sentirem bem e procurarem noutras localidades (vizinhas ou distantes) mais e bom lazer, outros e excelentes momentos culturais, recreativos.
Com dois pavilhões, uma biblioteca, uma casa de cultura, um jardim, duas praças, um estádio, uma avenida central, a Câmara não esteve interessada em abrir caminhos para novas relações nocturnas entre as pessoas. Hoje, com mais a novel Casa da Cultura - Cineteatro, não terá, no futuro próximo, desculpas para tanta indiferença.
Aos jovens e não só, resta-lhes aos fins-de-semana exibições de dj’s (alguns muito bons), festas temáticas, raros concertos em bares, discotecas e…associações recreativas e culturais nas freguesias. Como se sabe, não há na cidade uma associação cultural pujante, interessada na contemporaneidade das artes visuais, literárias e sonoras. E ainda hoje, há quem rejubile com os desaparecimentos da A. Cultura Jovem e da Atrium….
Para os mais idosos, aos fins-de-semana e por iniciativa da edilidade, nada, ou pouco mais do que nada, lhes é facultado. Jovens e idosos, se sem posses ou iniciativa pessoal, estão confinados a um “deserto” vivencial progressivo e aniquilante.
Rio Maior “nocturna” durante a semana é uma localidade confrangedora, desmotivante, “só”. Às sextas e sábados idem, se não entrarmos num bar ou numa discoteca.
A Cultura, no caso a Cultura nocturna, só “morde” quem fossilizou no tempo e não quer que os seus concidadãos progridam, conheçam, confraternizem.
“Morde” quem ainda pensa que a noite é propícia aos “pecados, desvarios, indecências”. E nela se organizam conluios contra o “sistema” vigente.
Têm medo do “papão”-mudança/s…evolutiva/s. Que vão acontecendo! Apesar – e por causa – “de”.







