
Em Bolonha, há sete anos, 29 ministros europeus acordaram o estabelecimento de uma área europeia de ensino superior (EHEA) até 2010. Participaram 45 países (todos os estados europeus à excepção da Bielorrússia) nesta harmonização dos sistemas de ensino. Os objectivos são a maior facilidade de equivalência e reconhecimento das qualificações dos alunos, a promoção da formação e empregabilidade ao longo de toda a vida, a livre transacção de docentes e estudantes pela Europa e a atracção pelo espaço europeu por parte de terceiros. A formação superior passa a ser organizada em três ciclos: o primeiro corresponde ao grau de licenciado (três anos de formação), o segundo ao de mestre (dois anos) e o terceiro ao de doutor (três anos). A classificação sofre também alterações - para além da nota numérica (de 0 a 20) atribuída pela instituição, há ainda uma nota ECTS (Sistema Europeu de Transferência e Acumulação de Créditos) expressa em letras de A a F.
Parece tudo muito bonito mas não falamos aqui de nenhum mar de rosas, ainda mais num país em que o “desenrascanso” à própria da hora nos corre no sangue tão fluentemente! Tratando-se de um tema direccionado sobretudo para o aluno, não se compreende o cepticismo de alguns para os quais o Processo de Bolonha mais lhes parece uma prateirada de esparguete enrolado, onde não se distingue o princípio nem o fim. A altura em que surgiu também não foi a mais indicada - os projectos de reformulação foram aceites no período de exames ou de férias de muitos alunos. Não há oportunidade dos próprios se informarem ou se insurgirem contra potenciais erros.
O que é facto é que está aqui a sobrar demasiado pano para mangas. Com isto teremos licenciados do sistema antigo e licenciados “de Bolonha” a competir no mercado de trabalho. Será que os empregadores vão preferir os de pré-Bolonha? Será que vão exigir um segundo ciclo de estudos que atribua ao estudante o grau de mestre? Assim, teremos profissionais licenciados em apenas três anos! É a chamada “formação em banda larga”, quase tão simples como fazer um bolo - mistura-se tudo, vai ao forno e espera-se que coza. O bolo passa a cozer em pouquíssimo tempo e está pronto para ir à mesa. Vamos ter uma produção em série de bolos em vez de um fabrico artesanal, onde se dá atenção a cada bolo. E, se me permitem continuar com a alegoria, passamos a ter profissionais com um canudo equiparável aos prémios da Farinha Amparo!
Apesar de tudo, temos um mercado de trabalho cada vez mais exigente. As instituições de ensino são pastelarias que recebem cada vez mais encomendas e despacham cada vez mais fornadas de bolos. Para a situação do ensino português, o Processo de Bolonha não será nada mau: exige a dinamização dos métodos de ensino e de estudo do básico ao superior, passando pelo secundário. Outra das benesses será a necessidade de apostar no ensino da língua inglesa desde a mais tenra idade.
Alunos, acautelem-se! O novo sistema requer um maior controlo das presenças nas aulas teóricas e práticas, nos relatórios e trabalhos de investigação, melhorar as capacidades de comunicação verbal e escrita, aprender a consultar bibliografia e a pesquisar. A adaptação curricular é pouco coerente - de facto, a carga horária foi encolhida mas não acredito que os programas tenham sido assim tão reduzidos!
Embora nem sempre os ventos sejam favoráveis, quem corre por gosto não cansa e estou convicta que faremos a corrida não com uma perna às costas, mas sem grandes atribulações. Quem já está há mais tempo nestas andanças e vê de repente o seu curso moldado a Bolonha também não precisa de entrar em pânico! Afinal, todos os elementos relativos ao processo académico do aluno serão mencionados no Suplemento ao Diploma, já para o caso de uma ou outra cadeira (que não custam nada a fazer, não é?!) serem eliminadas do novo plano curricular.
Portugal já conta com muitos cursos adequados a Bolonha, pois nesse sentido se têm esforçado as instituições. É melhor que se apressem até 2010 a adaptarem os seus cursos, pois o risco de se verem com falta de alunos aumenta. Entre um curso à antiga e um curso à Bolonhesa eu não hesitaria. E não se trata apenas de uma preferência pela gastronomia italiana...