Quarta-feira, Novembro 08, 2006

VIVER CULTURA NO CONCELHO – III


Desculpem-me os senhores autarcas do Concelho por esta frontalidade: a maioria não consegue entender e muito menos projectar Cultura nas suas freguesias e na cidade. Não os culpo por isso. Ao serem colocados nas listas partidárias ninguém lhes perguntou o que sobre cultura local sabiam e o que pretendiam fazer. São assim, e ancestralmente herdeiros dum consentido, grave problema nas sociedades locais – e na generalidade do país. Nalguns casos muito fazem, mas as raras excepções, algumas óptimas, parecem não suscitar interesse dos seus homólogos para tentarem saber como fazer activar associações, grupos, ou como salvaguardar identidades, patrimónios, pequenos que sejam.
Muitos destes autarcas, porque têm aptidões profissionais, tarimbas associativas, estatutos e intenções sócio-políticas, ou premiáveis militâncias partidárias, são eleitos para gerirem, melhorarem, transformarem lugares e governarem populações. Seria interessante analisar quantos (e como) colocam os assuntos culturais nos orçamentos e nas exigências à Câmara para atribuição de verbas. No Concelho, ninguém foi eleito porque lhe reconheceram competência, vida, conhecimento, profissão ou “tendência” cultural.
Aos presidentes das Juntas, não se lhes pode exigir uma profissionalização, para, a tempo inteiro, atenderem pessoas ou pensarem Cultura. Mas o presidente, os vereadores assalariados e os técnicos camarários, têm a obrigação de estarem atentos ao que se passa culturalmente na cidade, nas aldeias. Por exemplo, promovendo conferências, proporcionando simpósios, concedendo adequadas verbas para cada caso, região, necessidade -- sem disparidades, voláteis critérios ou favores. Não bastam discursos de circunstância em momentos festivos, primordial será saber olhar e sentir do que (só)ver.

O Concelho de Rio Maior necessita, com a celeridade possível, duma política cultural una, coesa, adequada, entendível, credível e desenvolvimentista. Nunca a teve. Ninguém se interessou por eficazmente a pensar, criar e concretizar. Concertada entre todos, de Norte a Sul, de Este a Oeste e emanada (não imposta) pela Câmara.

Não pode haver equívocos nem raro discernimento (e muito menos consentidas retaliações pessoais e partidárias) para prosseguir e exibir as pesquisas arqueológicas, para apoiar, potenciar, facultar as artes cénicas, sonoras e visuais. Estimular a literatura. Promover a defesa do ambiente. Respeitar e salvaguardar os patrimónios históricos. Entender (sem esforço) as associações. Tudo e todos como parceiros para um objectivo comum e nunca depreciativamente consentidos, tolerados .

As populações têm que se abrir à região, ao país, ao mundo. Não podem continuar hesitantes, esquecidos, fechados para dentro-de-si, a sessenta minutos da capital. Esta, tem de ser entendida e apetecida ocasionalmente por alguns eventos e nunca como uma distância sócio-cultural quase permanente, traumatizante e para a maioria das populações, um sítio inalcançável.
O país, as vilas e cidades mais próximas, devem conhecer o Concelho não só pela actividade empresarial, pelas Tasquinhas, pela “moca”, pelas salinas, mas também e cada vez mais pelas suas artes e património. Por que não via permutas ? E os emigrantes riomaiorenses sentir-se-iam entusiasmados se itinerante “embaixada” da sua “terra” os visitasse, mostrando as suas origens a quem os recebeu e convidando-os a “regressar” momentaneamente ou no futuro.
Escassa imaginação e ausente vontade imperam nas juntas e na Câmara. Parece que estão à espera que algo aconteça noutro lugar, para avaliarem e eventualmente copiarem.

Todos ambicionamos um Portugal globalmente desenvolvido. Não presumimos quando e se acontecerá. Contudo, essa consolidada vivência só imperará quotidianamente também com Cultura e Educação – nas cidades, vilas e aldeias. A responsabilidade é de todos: Governo, CCR’s, autarquias e munícipes.

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Obs: ao “pronto”, comentador do meu anterior texto. Não me congratulo com tantas rotundas nem com aquela estatuária na Av. Mário Soares, porque esteticamente normal, estilisticamente banal e com defeitos vários. Registei o merecido enaltecimento que a CMRM fez também ao bombeiro.
Obviamente o Executivo local não tem entendido, valorizado e potenciado as Marinhas. Quem trata assim um património e raridade da Natureza, “fonte” turística, identidade cultural e ex-libris do concelho…

4 Comments:

At Sexta-feira, 10 Novembro, 2006, Anonymous ceci n'est pas une pipe said...

Caro Manoel Barbosa
Conhece certamente a teoria, e a pirâmide, de Maslow.
Na base, as necessidades básicas.
No topo, as intelectuais.
Numa sociedade como a nossa, e especialmente em tempos conturbados como o actual (período após o 25/4) apenas uma minoria ascende ao topo da pirâmide de Maslow.
A maioria está preocupada em sobreviver, na base ou a meio.
Mas o pior, e indo ao encontro do seu post, é que do ponto de vista político-partidário, a resposta política, ou melhor, dos políticos ou dos têm responsabilidade política, não é melhor.
A lógica política neste país é a da capitalização política, quer quanto ao objecto da governação, quer quanto à oportunidade da sua implementação.
Assim, a cultura terá o lugar que certamente merece e carece nas cartilhas da governação quando, e sempre que, isso conferir votos.
Porque em democracia o bem mais precioso é o voto.
Caçar votos é o desporto nacional.
E tudo se verga a essa lógica.
Também na política, a actuação governativa, central e autárquica, se situa na base da pirâmide: Suprir as necessidades básicas, ou seja, obter votos.
Uma vez obtidos os votos, só se pensa numa coisa: Obter mais votos na eleição seguinte, nem que para isso se sacrifiquem os interesses maiores do país ou das populações.
A cultura, especialmente a cultura, como a maior parte das áreas de actuação do poder, são meros instrumentos nas mãos dos políticos com vista a uma única coisa: Manter o poder conquistado ou conquistar o poder perdido entretanto.
Ponto final.
Claro que pelo meio nem tudo é mau.
Claro que há muita coisa que se faz e vai fazendo.
Claro que algum do interesse público se vai alcançando.
Claro que o maniqueísmo é na análise política não traduz toda a realidade.
Sabemos disso.
Mas é a lógica subversiva de actuação política que temos no país que minoriza e precariza a lide política e a governação, sempre em desfavor dos governados, das populações.
O engajamento partidário, tal como ele existe em Portugal, é o alfobre da desgovernação.
Só há uma maneira de combater isto: Colocar no poder pessoas verdadeiramente bem formadas, altruístas e capazes.
Mas, para isso, já não sei se hei-de utilizar um microscópio se um telescópio...

 
At Sexta-feira, 10 Novembro, 2006, Anonymous pronto said...

O "ceci n'est pas une pipe"
centra, decerto, o seu discurso no concelho de rio maior, quando comenta a lógica de governação e de auto-sustentação da dita apenas por uma lógica de voto, o que pressupõe clientela, o que pressupõe uma lógica de controle.
por aqui, ainda não temos de alcançar os preciosismos estratégicos de alguns autarcas (o do Porto é um excelente exemplo quando faz depender a contratualização da autarquia com algumas organizações da não crítica à autarquia). aqui o povo é sereno e contenta-se com muito pouco. Porque será que o texto de manoel barbosa está vazio de comentários e nem os autores do blog dizem algo ?
mas que fácil foi inaugurar o cine teatro com a típica de rio maior e mais o lançamento de um livro, precisamente sobre resquícios do passado ?
manole barbosa tem razão quando que ninguem indagou do perfil cultural dos candidatos autárquicos. é que seria anedótico que essa preocupção fosse pertinente quando estavam todos preocupados com as ditas necessidades básicas. daí que seja muito fácil o pão e o circo ! Daí que o único interesse que o autarca conseguiu referir para a angélica parede branca do vazio cine-teatro seja algum evento desportivo !!! Não podíamos encontrar melhor dedução que tão bem se coadunasse com o perfil do nosso concelho.
mas atenção que, por vezes, é possível fazer viver qualquer cois de dinâmico, mesmo em terras perdidas, onde algumas élites conseguem fazer a diferença. assim de momento lembro-me de idanha a nova e mértola.
... mas isto são outras histórias ....

 
At Segunda-feira, 13 Novembro, 2006, Anonymous ceci n'est pas une pipe said...

À mingua de outros comentários, volto à carga, mas apenas para enfatizar o Manoel Barbosa.
Diz ele e muitíssimo bem:

"Não pode haver equívocos nem raro discernimento (e muito menos consentidas retaliações pessoais e partidárias) para prosseguir e exibir as pesquisas arqueológicas, para apoiar, potenciar, facultar as artes cénicas, sonoras e visuais. Estimular a literatura. Promover a defesa do ambiente. Respeitar e salvaguardar os patrimónios históricos. Entender (sem esforço) as associações. Tudo e todos como parceiros para um objectivo comum e nunca depreciativamente consentidos, tolerados.".

E é verdade tudo isto e bem sabe do que fala.

A arquelologia do concelho é rica e não serve apenas "para inglês ver". Serve também para descortinarmos a nossa individualidade enquanto povo, enquanto região; a nossa identidade.
E todavia, é tratada com os pés pela autarquia, a começar no próprio presidente da Câmara.
Estratégia? Política cultural?
Não!
Não!!!
Apenas quesílias pessoais!
A autarquia, em muitos domínios, e este é um deles, é dominado pelas quesílias pessoais, mais do que pelo interesse público.

As artes cénicas, sonoras e visuais são outras tantas áreas cuja lógica de aprovação passam pela cor partidária e por aquilo a que pessoalmente chamo a "lógica dos coladores de cartazes".
Como noutras áreas, as áreas da cultura (e nestas ainda pior, por se situarem no topo da pirâmide de Maslow versus) destinam-se à distribuição de benefícios pelos "coladores de cartazes".

"Coladores de cartazes" são, 'grosso modo' todos aqueles susceptíveis de beneficiar o partido do poder, nem que seja pela simples afixação de um cartaz eleitoral.

Literatura.
Estimular a literatura para quê?
Basta cumprir calendário, disponibilizando o mínimo 'sine qua non' nessas matérias.
E o mínimo 'sine qua non' é aquele que permite exibir a respectiva bandeira sem um comprometimento demasiado oneroso.
Áreas como a da cultura não dão votos ou raramente compram clientelas, nem favorecem os interesses instalados, no tradicional "toma lá, dá cá!" das trocas de favores...

O ambiente.
Para ir ao básico, basta percorrer os caminhos rurais do concelho para, em cada canto, decobrir a vergonha de lixo, entulho e mais lixo, por todo o lado!
Vergonha para as populações, que é quem lá coloca esse lixo, população terceiro mundista, sem educação nem civismo, verdadeiros trogloditas no séc. XXI.
Peguem numa bicicleta, vão por esses caminhos fora e verão a enorme lixeira em que este concelho está transformado.
Vergonha para as entidades fiscalizadoras, especialmente a GNR a quem estão cometidas competências fiscalizadoras nesta matéria.
Vergonha para a autarquia, indiferenge ao fenómeno instalado que não só é prejudicial à saúde pública como também factor de deserção de um turismo rural de qualidade.
Mas isto dá votos?
Não!
Quando der, logo se resolverá.

Para que serve esta arenga?

Gostava que servisse, além do mais, para que se perceba que não devemos calar, cada um de nós, aquilo que entendemos estar mal.
Que devemos ser exigentes com quem elegemos para servir o interesse público e não para se servir dos bens e da posição públicos.

Antes de tudo o mais, as pessoas, os cidadãos, enquanto pessoas e enquanto cidadãos, podem e devem ser EXIGENTES!

Podemos e temos o direito de exigir que se cumpra a lei.

Podemos e temos o direito de exigir que quem nos governa o faça comprometido com o interesse público, esse mesmo interesse que todo e qualquer governante jura quando toma posse.
Juram todos que "cumprirão com lealdade as funções que lhe são confiadas".

Já no poleiro, por vezes nada disso, outras vezes pouco disso fazem.

EXIGIR DAS PESSOAS QUE FORAM ELEITAS COM OS NOSSOS VOTOS PARA NOS REPRESENTAR, QUE CUMPRAM COM EFECTIVA LEALDADE AS FUNÇÕES PARA AS QUAIS FORAM NOMEADOS É PRIORIDADE E DIREITO DE QUALQUER CIDADÃO!

Sem medo!
Sem vergonhas espúrias!
Sem complexos!

Uma sociedade consciente dos seus deveres e dos seus direitos pode, e DEVE, SER EXIGENTE.

Talvez esse seja mesmo um dos principais problemas: Os cidadãos não têm, a mais das vezes, consciência dos seus direitos, e menos ainda dos seus deveres.

Aqui chegados, volto ao microscópio ou ao telescópio...

 
At Segunda-feira, 13 Novembro, 2006, Blogger Alberto said...

Entao?
falaremos ou nao sobre o feriado municipal?

que dizer das mesmas cerimónias bacocas de sempre?

sempre os mesmos passos?

Ja nao ha ideias?

Longe vão os tempos em que o Dr. Silvino tinha ideias! Hoje só já tem cansaço!

Nota-se à légua!

 

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