Quinta-feira, Junho 01, 2006

Uma sociedade cobarde


Há dias, assisti no nosso concelho e em plena via pública, mais concretamente no lugar de Pé da Serra, a algo de que todos falamos, porque falar “fica bem” e mostra que nos interessamos pelo problema, a um caso de extrema violência sobre uma criança.

Um casal, em plena via publica disputava a “posse” de uma criança por entre os gritos lancinantes da mesma, cada um puxando pelo seu braço e as pessoas à janela a assistirem à cena, como se de um espectáculo de rua se tratasse. Mesmo os condutores que passavam, apenas afrouxavam as viaturas, prosseguindo de imediato a sua rotina. Eu era um dos passantes que nada fez e apenas se demorou mais um pouco. O que para a criança eram marcas de ferro e fogo para toda uma vida, para nós foram apenas momentos incómodos.

Este é o retrato da sociedade que todos os dias vem dizer em grandes parangonas “não existe nada no mundo que me choque, entristeça e revolte mais do que saber que há crianças vítimas de maus-tratos”. Uma sociedade cobarde que não tem capacidade sequer pra cuidar do seu futuro, uma sociedade que vive presa das teias burocráticas que estiolam qualquer esforço ou boa vontade pra mudar as coisas, uma sociedade de que nos precisamos de libertar!

Fico sempre a imaginar o que aconteceria se alguém tivesse intervido em tão desigual luta, nesta sociedade que prefere o “ouvi dizer” a casos concretos, as palavras gordas à resolução dos problemas. O que teria conseguido? Pouca coisa decerto, umas inimizades com os vizinhos ou na melhor das hipóteses uma retirada temporária da criança aos pais, se é que aquelas criaturas são dignos de tal nome.

É por isso que os lugares comuns acerca de crianças me enojam. Ouvir coisas do tipo “ser mãe é uma bênção”; “sou o pai mais feliz do mundo”; “este filho salvou o nosso casamento”; dão-me vómitos. Será que ninguém tem coragem para salvar os filhos destes “pais”? Será que as “instituições” apenas se criaram para empregar mais uns amigalhaços do poder vigente e que, denodadamente, preparam relatórios e fogem do trabalho de campo, como o diabo da cruz?

8 Comments:

At Quinta-feira, 01 Junho, 2006, Anonymous Fernando said...

Caro Edgard,
Você até escreve bem... mas é oco.. fica um vazio no que escreve...
Perante a gravidade de tal acontecimento, em relação ao qual mostra uma enorme revolta, porque não fez nada então??? Será que estas suas "lindas" palavras agora resolvem o que quer que seja? Talvez se tivesse feito qualquer coisa (chamar a atenção dos pais para o que estavam a fazer, chamar as autoridades, etc.)tivesse conseguido qualquer coisa de melhor para aquela criança. Fala das instituições e por que não a sociedade civil a fazer algo? É muito mais fácil criticar, atribuir responsabilidades do que fazer o que quer que seja. Você assistiu ao caso e nada fez... não sente uma certa tristeza por isso? Acha que lhe fica bem vir agora com um texto destes? Fica-lhe muito mal, desculpe que lhe diga.
Sou pai, sei o que dói ver qualquer tipo de violência sobre uma criança. Com toda a certeza teria feito qualquer coisa. Você não é pai... percebe???

 
At Sexta-feira, 02 Junho, 2006, Blogger Edgard C.Gomes said...

Meu caro Fernando:

Devo dizer-lhe que apreciei o seu comentário. É a sua opinião, teve a coragem de a dar.

Abstendo-me das suas considerações de âmbito pessoal, devo contudo dizer-lhe que EU também pertenço à sociedade que critiquei e assumi-o por inteiro no texto.

Quisera eu ser a maçã podre do cesto, era fácil resolver a situação. Mas esse não é o problema. O problema é que provavelmente, eu e todas as outras pessoas que iam assistindo involuntariamente ao "triste espectáculo", fomos há muito contaminados pela indiferença que grassa na sociedade actual.

É verdade que poderá sempre alegar que poderia ter feito algo, como sugeriu, mas diga-me quais seriam os resultados, pra alem de acirrar os ânimos?

Essa é a verdadeira questão!

De nada adiantam as atitudes quixotescas, se depois deparamos com os moinhos de vento da indiferença generalizada de quem de direito

 
At Sexta-feira, 02 Junho, 2006, Anonymous ZP said...

Caro Edgard,

A mim o que me “enoja” e “causa vómitos” são textos como esse do tal Fernando!

A abjecta alusão de o senhor não ser pai leva-me a duas reflexões:
- ou o Fernando é o Francisco Louçã encapotado (lembram-se do debate em que ele disse que quem não é pai não deve falar de aborto?)
- ou se trata de um dos seus “amigos” de dentro do PSD. Daqueles que perderam o sono quando o Edgard foi candidato a vereador.

E essa do seu texto ser oco, que eu não acho, tem que se lhe diga. Quem reler o texto do Fernandinho apercebe-se da grosseria do indivíduo. Em primeiro não percebeu nada do seu texto, em segundo não passou de um exercício de pura maldade.

Mas lembre-se, meu amigo: antes não ter filhos do que meter no mundo mais “fernandos”!

 
At Sexta-feira, 02 Junho, 2006, Anonymous Anónimo said...

Tou incrédula!! Diz "quais seriam os resultados?? Acirrar os animos" Ai senhor!! Sou PSD mas deixei de ser neste momento por o sr existir...Que cobardia e ignorância..para a proxima saia de casa com uma venda nos olhos!!

 
At Sexta-feira, 02 Junho, 2006, Anonymous Anónimo said...

Fale daquilo que sabe e não sem meta em assuntos que não percebe mesmo nada!!! Retirar as crianças aos pais?? Santa ignorância...sabe que existem outras opções???

 
At Sábado, 03 Junho, 2006, Blogger Paulo Colaço said...

Caros anónimos,
No Rio da Ponte temos gosto nos comentários que nos enviam e respondemos aos que exigem ou aconselham uma reacção.
Pela irreflexão dos vossos comentários, não creio que o Edgard Gomes sinta precisão em replicar.
Lendo-os, apercebo-me que foi muito leviana a força que movimentou os vossos dedos pelo teclado.

A cegueira é uma característica que acompanha sentimentos exacerbados. O excesso (sobretudo no ódio) pode turvar a lucidez e prejudicar a nossa eficácia. Neste caso a cegueira pariu textos apalermados.
Ao retirarem frases do contexto, levaram os leitores a relê-las. Quem o fez, certamente percebeu o sentido das ideias bem como a razão que subjaz aos comentários…

Finalmente, cara “incrédula”, se o seu amuo com o PSD se deve à má interpretação do texto, uma releitura deve bastar para a reconciliação. Se o motivo da sua zanga é de outra natureza, não há releituras que lhe valham…

Nota: trato-vos no plural muito embora esteja em crer que seja a mesma pessoa – os comentários foram enviados com 1 minuto de diferença…

 
At Domingo, 04 Junho, 2006, Anonymous sal e pimenta said...

ehehehe, bem apanhado o "gato escondido com rabo de fora", caro Paulo Colaço!

Esta deve chegar para esse "companheiro" compreender que para a próxima deve esperar pelo menos um quarto de hora entre cada injecção de puro fel...

parabéns pelo blog! (tenho postado aqui e noutros lados com diferentes alcunhas, mas vou fixar-me nesta designação. perdoem-me mas eu nao vejo nem mérito nem vantagem de um cidadão anónimo deixar de o ser apenas por causa de um blog)

 
At Quarta-feira, 07 Junho, 2006, Anonymous esclarecimento said...

Percebo a indignação patente neste texto e os motivos que a ela levaram. E percebo também que essa indignação leva a críticas, muitas vezes fundadas, à generalidade de alguns serviços.

Porém, a generalização por vezes cria injustiças que, eu sei, não estavam de todo no horizonte do autor do texto. De qualquer forma faz sentido dar alguns esclarecimentos sobre o último parágrafo do post: «Será que as “instituições” apenas se criaram para empregar mais uns amigalhaços do poder vigente e que, denodadamente, preparam relatórios e fogem do trabalho de campo, como o diabo da cruz?»

Nestas “instituições” estão representados serviços, desde a Segurança Social, educação, Autarquia, e outros, enumerados no art. 17º da L 147/99 de 1/9.

Quanto ao trabalho de campo, as visitas domiciliárias são frequentes e sem aviso prévio. Sem o trabalho de campo, não se poderia conhecer a realidade existente. Não se está diariamente a fazer visitas, pois os membros das instituições também têm de estar nos seus serviços a trabalhar.

Quanto à situação em concreto, que é relatada no artigo, é um caso que não se pode prever, como bem sabemos.

As instituições alvo de critica somos todos nós, como o texto refere. Todos somos responsáveis pelas situações que acabam de forma mais dramática, porque não denunciamos. Sempre que haja uma criança em perigo, deveria ser e é, obrigação de qualquer cidadão denunciar essa situação. No caso apresentado, deveriam ter chamado a polícia. As denúncias até podem ser anónimas.

Por fim, cabe dizer que as instituições deste concelho que lidam com crianças, têm tido por parte da Autarquia um apoio fora do vulgar. Do encontro anual das CPCJ, foi com muito orgulho, que na apresentação dos trabalhos, Rio Maior foi a única Comissão que deu valor ao apoio dado pela Câmara Municipal e que disse que tinha todos os meios à sua disposição.

A verdade é que as crianças no nosso concelho têm um apoio exemplar. Existem os meios. Existe, principalmente a boa vontade, dos técnicos das instituições, que se disponibilizam 24 horas, 365 dias por ano. Da parte da Autarquia, que é a maior parceira, há sempre automóvel para visitas, há sempre disponibilidade atender a qualquer pedido. Aliás é a entidade que mais técnicos e meios dispensa.

Sei que o texto do Edgard Gomes pretendia criticar a “sociedade” em si e não as “instituições” de Rio Maior. Estes esclarecimentos são destinados a todos os que se interessam por estas matérias.

Cumprimentos

 

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